Foto: James Castner

Neste artigo especial da série “Praga da Semana” vamos falar da Lagarta-do-Cartucho ou Lagarta Militar, nome pelo qual é popularmente conhecida a Spodoptera frugiperda (J. E. Smith), a espécie do complexo Spodoptera que é mais encontrada na cultura do milho, mas também ocorre em outras culturas de grande influência socioeconômica no território nacional, como soja e algodão. Pode também ser encontrada em arroz, milheto, sorgo, dentre outras.

Este inseto-praga teve a sua representatividade na agricultura aumentada principalmente devido a dois fatores: a espécie passou a ter maior resistência aos inseticidas e, com a intensificação da cultura do milho (mais de um ciclo de cultivo anual), os cultivos sucessivos ocasionaram a sobrevivência e o fluxo das populações das mariposas de S. frugiperda entre as culturas hospedeiras, independente da fase de desenvolvimento das plantas e época de cultivo.

O ciclo de vida de S. frugiperda é relativamente curto, levando em torno de 25 a 30 dias para se completar. O período larval varia de 15 a 25 dias, com 4 a 7 ínstares. Esse período varia dependendo da temperatura, planta hospedeira, sexo e biótipo.

As fêmeas realizam postura em massa na página superior das folhas, com aproximadamente 200 a 300 ovos. O período de incubação dos ovos é de aproximadamente 3 dias, sendo que estes são de coloração verde-clara e passam para alaranjado após algumas horas da oviposição. A longevidade dos adultos é de aproximadamente 12 dias, no qual as fêmeas ovipositam mais de 1000 ovos, o que faz com que a espécie apresente elevado potencial reprodutivo.

A identificação visual desta espécie na fase imatura (e que causa danos) é realizada pela coloração das lagartas, sendo que no primeiro ínstar são de coloração clara e passam para pardo-escuro ou quase pretas, com presença de listras claras no dorso e pontuações escuras em todo o corpo, incluindo 4 pontos pretos no abdome, dispostos em quadrado. Além disso, apresentam uma característica marcante de um “Y” invertido na parte frontal da cabeça, e apresentam hábito noturno.

As pupas são de coloração marrom-avermelhada e ficam abrigadas no solo por aproximadamente 10 dias.

Os adultos de S. frugiperda são mariposas com alta mobilidade, com as asas anteriores de coloração cinza escuro e posteriores branco acinzentadas. São pequenas, medindo em torno de 4 cm de envergadura.

Uma dica para identificação dessa praga na área é a presença de excrementos que são deixados nas folhas pela lagarta.

Foto: Experimento de Doutorado de Jackellyne Bruna Sousa

Danos

Os danos da Spodoptera frugiperda no milho quando em alta infestação são muito significativos, podendo atingir perdas de 40 até 60% na produção. O período de maior ocorrência da espécie é entre outubro e janeiro, mas também podem ocorrer altas infestações na segunda safra de milho, caso haja condições ideais para o desenvolvimento da praga, sendo estas: baixa precipitação, altas temperaturas durante o dia e temperaturas amenas durante a noite.

Quando presente na época de emergência das plântulas de milho, pode causar danos cortando as plântulas e reduzindo o estande (hábito semelhante ao da Agrotis ipsilon). Também pode perfurar a base da planta atingindo o ponto de crescimento e provocando o sintoma de “coração morto” (similar ao dano da Elasmopalpus lignosellus). Já durante a fase vegetativa, os danos diretos de S. frugiperda são os furos que elas fazem no cartucho, que podem causar destruição total do cartucho, e a raspagem das folhas, para alimentação. Normalmente encontra-se apenas uma lagarta por cartucho, pois essa espécie apresenta canibalismo na fase larval.

Na fase reprodutiva, deve ser tomado um cuidado adicional durante o início do florescimento, pois neste período as lagartas migram das folhas e entram nas espigas, podendo se alimentar das mesmas, cortar os estilo-estigmas (não permitindo a fecundação) e dessa forma reduzir o potencial de produção dos grãos ou provocar perda quase total. A partir de R3 as lagartas não conseguem mais penetrar na palha da espiga e o dano fica restrito apenas na ponta da espiga.

Um dano secundário, mas também representativo, é a entrada de microrganismos pelas injúrias causadas pela lagarta, que reduzem a qualidade dos grãos.

Em soja, S. frugiperda é a espécie mais presente no início do desenvolvimento da cultura, mas pode ocorrer em qualquer fase da cultura. Nessa cultura as lagartas alimentam-se inicialmente das folhas e depois passam a consumir também vagens em início de formação.

No algodoeiro, a Spodoptera frugiperda pode alimentar-se de folhas, de botões florais e, principalmente, de maçãs em formação. Como as lagartas ficam no interior do dossel e das maçãs, o contato com os inseticidas via pulverização fica reduzido, dificultando o controle nessa cultura.

Controle

A melhor forma de controle de pragas é o MIP (manejo integrado de pragas), onde o mais importante é manter as populações de pragas em um limite compatível com a produção econômica da cultura, para também favorecer a manutenção da qualidade ambiental.

Porém, o controle de S. frugiperda por vezes tem sido realizado logo que detectada a sua presença no campo e em geral com aplicação de produtos químicos, pela falta de conhecimentos básicos para o manejo, como dinâmica populacional, planos de amostragens e nível de controle. Isso fez com que nos últimos anos tenham se tornados mais frequentes os relatos de indivíduos resistentes no campo e, devido a isso, com frequência os inseticidas têm apresentado falhas de controle.

Algumas das possíveis causas para o aumento de indivíduos resistentes são a má regulagem dos equipamentos, a escolha incorreta de produtos químicos e a condução nem sempre adequada da cultura, o que têm aumentado o número médio de aplicações de inseticidas, sem um adequado controle da praga. Tem sido documentados resistência em populações de S. frugiperda até >40% para inseticidas dos principais grupos químicos: carbamatos, organofosforados, piretroides, spinosinas e inibidores de síntese de quitina. Outra possível causa da resistência a inseticidas e também a plantas Bt ocorre em consequência de pulverizações de inseticidas com mesmo mecanismo de ação. Dessa maneira, conhecer o ciclo da praga, realizar o MIP (manejo integrado de pragas) e implementar estratégias de manejo da resistência são as formas mais eficientes para um controle adequado de S. frugiperda.

Algumas estratégias de manejo da resistência para garantir a durabilidade das táticas de controle são: manter períodos no campo sem plantas hospedeiras da praga; alternar o uso de inseticidas com diferentes mecanismos de ação; usar as doses recomendadas para cada inseticida e priorizar o uso de inseticidas seletivos visando a preservação de inimigos naturais; Implementar áreas de refúgio recomendadas para a preservação da suscetibilidade da praga as proteínas de Bt (favorecendo a durabilidade dessas tecnologias para o MIP); dar preferência para os cultivos Bt que expressam mais de uma proteína inseticida para o controle de pragas; estabelecer essas estratégias de manejo em âmbito regional, devido a praga possuir alta mobilidade; planejar rotação de culturas para garantir um período do ano sem plantas hospedeiras de S. frugiperda.

Os dois períodos críticos para o manejo de controle da lagarta-do-cartucho no milho são:

– No estádio vegetativo: da emergência das plântulas até 30 dias após a semeadura (VE até V6), onde podem ocorrer danos significativos nas folhas e no colmo do milho;

– No estádio reprodutivo: de uma semana antes até duas semanas após o florescimento (V15 até R2), onde podem ocorrer grandes perdas por danos nas espigas, totalizando cerca de 20 dias.

Para este inseto, o nível de controle recomendado é de 20% de incidência de plantas raspadas.

Entre os agentes de controle biológico para esta praga, tem sido alvo de pesquisas o vírus de poliedrose nuclear de S. frugiperda (VPNSf), que tem apresentado um bom potencial de controle.

Os principais agentes reguladores da população de S. frugiperda encontrados naturalmente no campo são tesourinha (Doru luteipes), que predam predando ovos e lagartas de primeiro ínstar; e alguns coleópteros e hemípteros que predam lagartas. Alguns parasitóides que participam do controle natural da lagarta-do-cartucho são Trichogramma pretiosum, T. atopovirilia e Telenomus remus, que parasitam ovos; e Campoletis flavicincta, que parasita lagartas.

 

Pesquisas com Spodoptera frugiperda

As pesquisas para desenvolvimento de novos produtos biológicos ou químicos com maior especificidade são importantes para o controlar altas infestações de S. frugiperda nas culturas e para tornar a agricultura mais sustentável. A Pragas.com apoia essas pesquisas e para ajudar a viabilizá-las, mantém em seu portifólio a espécie S. frugiperda e demais insumos, como dieta artificial própria para esta espécie, gaiolas e bandejas para criações e/ou condução de experimentos.

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Este artigo teve como referências: 

http://www2.senar.com.br/Noticias/Detalhe/13081/

https://www.agro.bayer.com.br/alvos/lagarta-do-complexo-spodoptera#tab-2

https://www.irac-br.org/spodoptera-frugiperda

https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-204X1999001100001&lng=pt&tlng=pt

revistas.ufg.br/pat/article/view/59517

http://www.agricenterseberi.com.br/noticia/1085/lagartadocartucho

https://www.scielo.br/pdf/ne/v39n6/v39n6a23.pdf

Prioridades: Lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda) em milho

 

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